Para Eduardo Felipe Matias, autor
de “A humanidade e o poder digital”, a inteligência artificial pode ampliar
produtividade e inovação, mas também desafia empresas, governos e RHs a
protegerem autonomia, direitos e o futuro das profissões.
O digital deixou de ser uma
ferramenta que acessamos apenas quando queremos. Hoje, ele funciona como uma
espécie de infraestrutura invisível da vida cotidiana. Está presente na forma
como trabalhamos, nos informamos, consumimos, nos deslocamos, nos relacionamos
e até percebemos o mundo. Plataformas, aplicativos e algoritmos organizam
agendas, definem rotas, recomendam músicas e filmes, filtram notícias,
direcionam compras e influenciam decisões que parecem individuais, mas muitas
vezes são moldadas por sistemas que operam em segundo plano.
Para Eduardo Felipe
Matias, autor do livro “A humanidade e o poder digital” e
das obras “A humanidade e suas fronteiras” e “A
humanidade contra as cordas”, esse novo ambiente já permeia a humanidade. O
digital não entra mais no dia a dia apenas como apoio. Ele se tornou o próprio
espaço em que a vida social e profissional acontece. Ao capturar dados pessoais
e estabelecer perfis de comportamento, o poder digital pode passar a
condicionar ações e moldar comportamentos.
Essa transformação ganha ainda
mais força com a combinação entre plataformas digitais e inteligência
artificial. As grandes plataformas acumulam dados e capital, concentrando
poder. A IA amplia essa posição ao transformar grandes volumes de informação em
capacidade de prever, classificar, recomendar e persuadir. O resultado é um
novo arranjo de poder, menos visível do que as estruturas tradicionais, mas
cada vez mais presente na vida social, econômica e política.
Nesse cenário, as big techs
deixam de ser apenas empresas que oferecem serviços. Elas passam a influenciar
comportamentos, organizar fluxos de informação e, em alguns casos, interferir
no debate público. Isso acontece porque controlam ambientes digitais onde
pessoas se informam, se expressam, fazem negócios e participam da vida pública.
Ao definirem o que circula, o que é removido e quais comportamentos são
incentivados ou inibidos, essas empresas exercem um poder normativo inédito.
Matias chama atenção para uma
espécie de “soberania funcional” das plataformas digitais. Elas criam regras,
arbitram disputas e aplicam sanções com base em algoritmos e termos de uso. Com
isso, a praça pública digital e a própria liberdade de expressão passam a
depender de uma governança privada nem sempre sujeita ao controle público.
Somadas à vigilância constante, ao domínio dos dados e à capacidade de
persuasão algorítmica, essas dinâmicas colocam em debate privacidade,
autonomia, liberdade e democracia.
O impacto sobre o mundo do
trabalho é igualmente profundo. A IA generativa tende a automatizar tarefas
cognitivas antes vistas como tipicamente humanas, como escrever, resumir,
programar, pesquisar e desenhar. Isso pode liberar profissionais de atividades
repetitivas e aumentar a produtividade em alguns setores. Mas também pode
reduzir a demanda por determinados tipos de profissionais, pressionar salários
em áreas expostas à automação e ampliar desigualdades de renda.
Na avaliação de Matias, novas
profissões devem surgir, mas provavelmente não em ritmo suficiente para
compensar a perda de postos de trabalho. Por isso, crescerá a importância das
competências que as máquinas ainda não conseguiram igualar, como julgamento
crítico, empatia, criatividade, comunicação, colaboração e liderança. Essa
constatação reposiciona o papel do RH nas empresas.
A área de Recursos Humanos
precisará deixar de olhar apenas para cargos e passar a mapear tarefas,
competências e potencial de automação. O desafio não será apenas identificar
quais funções podem ser automatizadas, mas compreender o que precisa ser preservado,
desenvolvido e ressignificado na experiência humana do trabalho.
Um ponto sensível está nas
posições de entrada das carreiras. A IA já pode executar algumas tarefas com
mais qualidade do que um recém-formado. Mas substituir indiscriminadamente
essas funções pode comprometer a perenidade das empresas. Afinal, se novas pessoas
não ingressam nas organizações, como serão formados os futuros líderes?
Matias lembra que a IA possui
conhecimento técnico, mas não conhecimento empírico — aquele que nasce da
experiência acumulada ao longo dos anos e da vivência de situações reais. Nesse
sentido, a condição da IA se aproxima da de alguém com pouco tempo de formado:
pode dominar conceitos e executar tarefas, mas não carrega repertório prático.
Por isso, empresas que não quiserem correr o risco de ficar sem sucessores
preparados precisarão repensar as funções iniciais, expondo jovens
profissionais a situações nas quais possam acumular experiência concreta.
O papel estratégico do RH,
portanto, será qualificar pessoas e garantir que a IA aumente as capacidades
humanas, em vez de simplesmente substituí-las. Isso exigirá investimento
contínuo em treinamento e requalificação, além de uma visão mais madura sobre
como tecnologia e trabalho humano podem se complementar.
Mas o avanço da inteligência
artificial também traz riscos importantes quando decisões automatizadas passam
a influenciar contratações, consumo, acesso à informação e relações sociais. O
principal deles é o viés. Sistemas de IA que fazem recomendações ou tomam
decisões podem reproduzir preconceitos consolidados se forem treinados com
dados históricos enviesados.
Em processos seletivos, por
exemplo, decisões automatizadas podem orientar triagens de candidatos. Em
crédito, podem influenciar quem terá acesso a financiamento. Se esses sistemas
operam com base em padrões discriminatórios do passado, a promessa de eficiência
pode encobrir decisões opacas e injustas. O problema se agrava porque, muitas
vezes, essas decisões não passam por revisão humana, e a pessoa afetada sequer
sabe por que foi recusada.
Essa falta de transparência se
conecta ao fenômeno das “caixas-pretas” da IA. Muitos sistemas são baseados em
modelos altamente complexos, alimentados por enormes volumes de dados e
ajustados por processos que nem sempre permitem explicar, passo a passo, como
uma conclusão foi produzida. Além disso, parte relevante desses sistemas é
protegida por segredo comercial.
Há esforços para tornar a IA mais
explicável e interpretável, mas isso tem custo. Para Matias, a sociedade
precisará decidir quais sistemas exigem maior transparência. Uma recomendação
de músicas em aplicativo, por exemplo, tem impacto limitado. Já previsões
relacionadas à justiça criminal ou decisões com efeito sobre emprego, crédito e
direitos precisam ser muito mais transparentes.
No ambiente corporativo, essa
discussão chega diretamente ao RH. Quanto mais empresas adotarem ferramentas
automatizadas para triagem, avaliação, promoção ou monitoramento de desempenho,
maior será a necessidade de governança, revisão humana e critérios éticos. O
risco não está apenas no uso da tecnologia, mas no uso sem compreensão, sem
transparência e sem responsabilidade.
Outro desafio é a economia da
atenção. Plataformas digitais transformaram o tempo humano em ativo econômico.
Conteúdos sensacionalistas, capazes de provocar indignação ou mobilizar
emoções, tendem a prender mais usuários e viralizar. Como os algoritmos são
desenhados para maximizar engajamento, acabam promovendo esse tipo de
publicação, o que pode favorecer a desinformação e empobrecer o debate público.
No plano individual e
profissional, essa lógica de estímulos contínuos — notificações, recompensas
intermitentes, comparação social e exposição permanente a novos conteúdos —
fragmenta a atenção e reduz os espaços de pausa e reflexão. Os efeitos aparecem
na saúde mental,
com aumento da ansiedade e da sensação de inadequação, e também no trabalho,
com maior dispersão e dificuldade de manter o foco em tarefas complexas.
Para empresas e RHs, esse ponto é
decisivo. A produtividade não depende apenas de ferramentas digitais mais
rápidas. Depende também da capacidade de preservar atenção, concentração, saúde
mental e qualidade das interações. Em um ambiente marcado por busca constante
de validação e respostas imediatas, o bem-estar das pessoas e a qualidade do
trabalho podem ser afetados de forma silenciosa.
A solução não está em rejeitar a
tecnologia. Matias defende que regulação e inovação não são forças opostas.
Quando bem-feita, a regulação pode favorecer a inovação. O desafio é não
bloquear avanços benéficos, mas também não permitir que a tecnologia avance sem
limites. É preciso reduzir riscos sistêmicos, proteger direitos dos usuários,
preservar a concorrência, exigir transparência adequada para cada aplicação e
responsabilizar quem causa danos.
Essa regulação, no entanto, deve
ser flexível o suficiente para não sufocar usos positivos da tecnologia. A
questão central não é escolher entre inovar ou proteger direitos, mas construir
um equilíbrio que permita progresso sem exclusão, abuso ou perda de controle
social.
Nesse cenário, o tipo de
liderança exigido pela era digital será diferente. Será necessária uma
liderança capaz de compreender as transformações trazidas pela inteligência
artificial e navegar em um mundo cada vez mais influenciado por ela. A IA deve
ser vista como aliada, por seu potencial de ampliar eficiência e produtividade,
mas também precisa ser compreendida em sua complexidade.
O uso da tecnologia exige atenção
aos riscos de opacidade, vieses e reforço de mecanismos de exclusão e
desigualdade. Conhecer e discutir esse cenário exige aprofundamento sobre o
funcionamento das tecnologias digitais e sobre o jogo de poder que existe por
trás delas. Isso vale tanto para lideranças privadas quanto públicas.
Para o RH, a provocação é direta.
A área não poderá se limitar a adaptar processos antigos a novas ferramentas.
Terá de participar das decisões sobre automação, qualificação, ética, inclusão,
desenho de trabalho e desenvolvimento de lideranças. Também precisará preparar
as pessoas para um mercado em que tarefas mudam rapidamente, mas competências
humanas ganham ainda mais valor.
O livro “A humanidade e o
poder digital” nasce justamente para contribuir com esse debate. Ao
olhar para a relação entre plataformas, inteligência artificial, trabalho,
democracia e autonomia humana, Eduardo Felipe Matias aponta que o futuro
digital não será definido apenas pela capacidade técnica das máquinas, mas
pelas escolhas sociais, políticas e empresariais que faremos diante delas.
A questão, portanto, não é se o
digital continuará moldando nossas vidas. Ele já molda. A pergunta decisiva é
quem controla esse poder, com quais regras, em benefício de quem e a que custo
para a autonomia humana.
No mundo do trabalho, essa pergunta se traduz em outra: a inteligência artificial será usada para ampliar capacidades, formar pessoas e fortalecer a sociedade, ou para aprofundar desigualdades, automatizar exclusões e reduzir o humano a dados? A resposta dependerá da coragem de empresas, governos e lideranças em tratar tecnologia não apenas como ferramenta de eficiência, mas como uma força de poder que precisa ser compreendida, governada e colocada a serviço da humanidade.
Publicado originalmente em Redação Mundo RH, segue link: IA exige um novo RH para proteger o humano - Mundo RH
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