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E,M TECH – REDES SOCIAIS SÃO JULGADAS NOS EUA POR DESIGN VICIANTE E FALHAS NA PROTEÇÃO DE MENORES

06 Fevereiro 2026/ Notícias & Artigos/

Nos Estados Unidos, o contencioso envolvendo redes sociais e alegados danos a crianças e adolescentes vem passando por uma mudança relevante de enquadramento jurídico. A discussão, que por anos esteve centrada na liberdade de expressão e na imunidade das plataformas em relação a conteúdo de terceiros, migra para uma estratégia que trata o problema como uma questão de produto: o foco desloca-se para o design das plataformas, sua arquitetura de engajamento e eventuais falhas de segurança. Essa inflexão busca contornar os obstáculos tradicionais impostos pela Primeira Emenda, que protege a liberdade de expressão, e pela Section 230 do Communications Decency Act, que prevê uma imunidade para as plataformas por conteúdos publicados por terceiros, alterando de forma significativa as teses de responsabilidade e aumentando o peso da prova técnica nos litígios.

As novas ações sustentam que determinados mecanismos de retenção e recomendação — como rolagem infinita, reprodução automática, sistemas algorítmicos de personalização e elementos de gamificação — podem intensificar riscos específicos para o público infantojuvenil. A resposta das empresas, por sua vez, tende a reiterar defesas já consolidadas, ancoradas tanto na Primeira Emenda quanto na Section 230, agora aplicadas ao contexto de funcionalidades de produto.

Em termos gerais, essas defesas operam em duas frentes complementares. Pela ótica constitucional, as plataformas argumentam que decisões relacionadas à curadoria, priorização e recomendação de conteúdo integram escolhas editoriais protegidas pela liberdade de expressão, o que limitaria determinadas formas de intervenção estatal ou de responsabilização civil. Já com base na Section 230, sustenta-se que provedores de aplicações online não devem ser tratados como publicadores do conteúdo criado por terceiros, o que, em regra, afasta ou reduz sua responsabilidade civil, ao mesmo tempo em que preserva espaço para práticas de moderação de boa fé, a depender da formulação do pedido e do contexto fático.

Essas linhas de defesa aparecem de forma clara, por exemplo, no processo movido pelo Estado do Novo México contra a Meta. Nesse caso, o Ministério Público estadual alega que a empresa teria priorizado métricas de engajamento em detrimento de salvaguardas adequadas para menores, incluindo acusações relacionadas à facilitação de exploração sexual infantil e à insuficiência de medidas preventivas e de resposta. A controvérsia ilustra como o debate vem se deslocando da análise pontual de conteúdos para a avaliação sistêmica das escolhas de produto e governança de segurança.

Paralelamente, a litigância em massa envolvendo supostos danos associados ao uso de redes sociais por jovens ganhou escala. Milhares de ações foram reunidas em procedimentos de Multidistrict Litigation (MDL), que concentram demandas semelhantes contra os mesmos réus no sistema federal norte americano. Esse movimento inclui não apenas famílias, mas também distritos escolares como autores, o que amplia o debate para custos sociais e institucionais ligados à saúde mental, ao ambiente educacional e à alocação de recursos públicos. A dinâmica do MDL aumenta a relevância de documentos internos, estudos, métricas e decisões estratégicas de produto, elevando tanto o risco probatório quanto o impacto reputacional para as plataformas envolvidas.

Procuradores gerais estaduais, famílias e distritos escolares argumentam que as plataformas teriam criado ambientes digitais que estimulam o uso compulsivo, contribuindo para quadros de ansiedade, depressão, distúrbios alimentares e outros prejuízos à saúde mental de jovens usuários. Ao enquadrar essas funcionalidades como componentes de um produto potencialmente defeituoso ou inadequadamente seguro, as ações procuram afastar as defesas tradicionais baseadas em conteúdo e aproximar o debate dos regimes de responsabilidade civil por produto e de proteção à saúde pública.

Os pedidos formulados nesses processos não se limitam a indenizações financeiras destinadas a custear tratamentos médicos ou compensar impactos suportados por famílias e escolas. Há também pleitos por mudanças estruturais nos próprios produtos, incluindo verificação etária mais rigorosa, fortalecimento de controles parentais e limitação ou eliminação de mecanismos considerados excessivamente viciantes. Em última instância, questiona?se o próprio modelo de negócios baseado em publicidade e na maximização do tempo de permanência do usuário nas plataformas.

Enquanto algumas empresas, como TikTok e Snap, optaram por acordos extrajudiciais cujos termos não foram divulgados, outras — em especial Meta e Google, no caso do YouTube — demonstram disposição para levar a controvérsia até o julgamento. Essas empresas sustentam, entre outros pontos, a ausência de comprovação científica de causalidade direta entre o uso de suas plataformas e os danos alegados, além de reafirmarem a proteção constitucional à liberdade de expressão como limite à responsabilização.

Independentemente do resultado concreto desses litígios, o conjunto de ações revela uma inflexão relevante no tratamento jurídico das plataformas digitais. Pela primeira vez de forma sistemática, o design e a arquitetura de engajamento das redes sociais passam a ser examinados judicialmente como potenciais fatores de risco à saúde pública, especialmente no que se refere à proteção de crianças e adolescentes. O desfecho desse embate pode redefinir os contornos da responsabilidade civil das big techs e influenciar futuras iniciativas regulatórias em diferentes jurisdições.

O cenário vem sendo comparado ao chamado “momento Big Tobacco”, expressão que remete à virada histórica em que a indústria dos cigarrospassou a ser responsabilizada por produtos sabidamente nocivos. A analogia resume o desafio central enfrentado pelas plataformas: demonstrar que seus modelos de produto e engajamento podem coexistir com expectativas crescentes de segurança, transparência e proteção de públicos vulneráveis.

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Fontes: Social Media On Trial – The Daily | Tech giants head to landmark US trial over social media addiction claims – The Guardian | Meta, YouTube face trial over allegations their tech is addictive, as TikTok settles – CBS News | Parents say teens are addicted to social media. Now, a jury will decide – The Washington Post



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