Nos Estados Unidos, o contencioso
envolvendo redes sociais e alegados danos a crianças e adolescentes vem
passando por uma mudança relevante de enquadramento jurídico. A discussão, que
por anos esteve centrada na liberdade de expressão e na imunidade das
plataformas em relação a conteúdo de terceiros, migra para uma estratégia que
trata o problema como uma questão de produto: o foco desloca-se para o design
das plataformas, sua arquitetura de engajamento e eventuais falhas de
segurança. Essa inflexão busca contornar os obstáculos tradicionais impostos
pela Primeira Emenda, que protege a liberdade de expressão, e pela Section 230
do Communications Decency Act, que prevê uma imunidade para as plataformas por
conteúdos publicados por terceiros, alterando de forma significativa as teses
de responsabilidade e aumentando o peso da prova técnica nos litígios.
As novas ações sustentam que
determinados mecanismos de retenção e recomendação — como rolagem infinita,
reprodução automática, sistemas algorítmicos de personalização e elementos de
gamificação — podem intensificar riscos específicos para o público infantojuvenil.
A resposta das empresas, por sua vez, tende a reiterar defesas já consolidadas,
ancoradas tanto na Primeira Emenda quanto na Section 230, agora aplicadas ao
contexto de funcionalidades de produto.
Em termos gerais, essas defesas
operam em duas frentes complementares. Pela ótica constitucional, as
plataformas argumentam que decisões relacionadas à curadoria, priorização e
recomendação de conteúdo integram escolhas editoriais protegidas pela liberdade
de expressão, o que limitaria determinadas formas de intervenção estatal ou de
responsabilização civil. Já com base na Section 230, sustenta-se que provedores
de aplicações online não devem ser tratados como publicadores do conteúdo
criado por terceiros, o que, em regra, afasta ou reduz sua responsabilidade
civil, ao mesmo tempo em que preserva espaço para práticas de moderação de boa fé,
a depender da formulação do pedido e do contexto fático.
Essas linhas de defesa aparecem
de forma clara, por exemplo, no processo movido pelo Estado do Novo México
contra a Meta. Nesse caso, o Ministério Público estadual alega que a empresa
teria priorizado métricas de engajamento em detrimento de salvaguardas
adequadas para menores, incluindo acusações relacionadas à facilitação de
exploração sexual infantil e à insuficiência de medidas preventivas e de
resposta. A controvérsia ilustra como o debate vem se deslocando da análise
pontual de conteúdos para a avaliação sistêmica das escolhas de produto e
governança de segurança.
Paralelamente, a litigância em
massa envolvendo supostos danos associados ao uso de redes sociais por jovens
ganhou escala. Milhares de ações foram reunidas em procedimentos de Multidistrict
Litigation (MDL), que concentram demandas semelhantes contra os mesmos réus no
sistema federal norte americano. Esse movimento inclui não apenas famílias, mas
também distritos escolares como autores, o que amplia o debate para custos
sociais e institucionais ligados à saúde mental, ao ambiente educacional e à
alocação de recursos públicos. A dinâmica do MDL aumenta a relevância de
documentos internos, estudos, métricas e decisões estratégicas de produto,
elevando tanto o risco probatório quanto o impacto reputacional para as
plataformas envolvidas.
Procuradores gerais estaduais,
famílias e distritos escolares argumentam que as plataformas teriam criado
ambientes digitais que estimulam o uso compulsivo, contribuindo para quadros de
ansiedade, depressão, distúrbios alimentares e outros prejuízos à saúde mental
de jovens usuários. Ao enquadrar essas funcionalidades como componentes de um
produto potencialmente defeituoso ou inadequadamente seguro, as ações procuram
afastar as defesas tradicionais baseadas em conteúdo e aproximar o debate dos
regimes de responsabilidade civil por produto e de proteção à saúde pública.
Os pedidos formulados nesses
processos não se limitam a indenizações financeiras destinadas a custear
tratamentos médicos ou compensar impactos suportados por famílias e escolas. Há
também pleitos por mudanças estruturais nos próprios produtos, incluindo
verificação etária mais rigorosa, fortalecimento de controles parentais e
limitação ou eliminação de mecanismos considerados excessivamente viciantes. Em
última instância, questiona?se o próprio modelo de negócios baseado em
publicidade e na maximização do tempo de permanência do usuário nas
plataformas.
Enquanto algumas empresas, como
TikTok e Snap, optaram por acordos extrajudiciais cujos termos não foram
divulgados, outras — em especial Meta e Google, no caso do YouTube — demonstram
disposição para levar a controvérsia até o julgamento. Essas empresas
sustentam, entre outros pontos, a ausência de comprovação científica de
causalidade direta entre o uso de suas plataformas e os danos alegados, além de
reafirmarem a proteção constitucional à liberdade de expressão como limite à
responsabilização.
Independentemente do resultado
concreto desses litígios, o conjunto de ações revela uma inflexão relevante no
tratamento jurídico das plataformas digitais. Pela primeira vez de forma
sistemática, o design e a arquitetura de engajamento das redes sociais passam a
ser examinados judicialmente como potenciais fatores de risco à saúde pública,
especialmente no que se refere à proteção de crianças e adolescentes. O
desfecho desse embate pode redefinir os contornos da responsabilidade civil das
big techs e influenciar futuras iniciativas regulatórias em diferentes
jurisdições.
O cenário vem sendo comparado ao
chamado “momento Big Tobacco”, expressão que remete à virada histórica em que a
indústria dos cigarrospassou a ser responsabilizada por produtos sabidamente
nocivos. A analogia resume o desafio central enfrentado pelas plataformas:
demonstrar que seus modelos de produto e engajamento podem coexistir com
expectativas crescentes de segurança, transparência e proteção de públicos
vulneráveis.
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Fontes: Social Media On Trial – The Daily | Tech giants head to landmark US trial over social media addiction claims – The Guardian | Meta, YouTube face trial over allegations their tech is addictive, as TikTok settles – CBS News | Parents say teens are addicted to social media. Now, a jury will decide – The Washington Post
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