Se o
ciclo de expansão da inteligência artificial não se justificar, a correção
tende a se assemelhar mais à crise do subprime do que à bolha pontocom
A
nova tecnologia, de natureza revolucionária, se espalhou depressa, dando a
entender que reescreveria as regras do jogo da economia global. Prometia salto
de produtividade, aceleração do trabalho intelectual e empresas mais
eficientes. O dinheiro correu para onde houvesse uma narrativa convincente,
startups viraram unicórnios, e o “medo de ficar de fora” passou a guiar
decisões de investimento. Até que, quando a eficiência prometida não se
converteu em receita na velocidade esperada, o entusiasmo revelou sua
fragilidade, as valuations despencaram e a bolha estourou.
Se
você pensou que estávamos falando de inteligência artificial, não. A tecnologia
em questão é a internet, e o cenário é o da bolha pontocom de 2000/2001. Ainda
assim, se a analogia for válida e o boom da IA também for uma bolha, há motivos
para crer que seu estouro seguiria um enredo mais próximo de outra crise: a que
afetou os mercados financeiros globais em 2007 e 2008.
Na
bolha pontocom, o problema central foi a supervalorização das ações de empresas
ligadas à internet. Já na crise do subprime, nascida no mercado imobiliário dos
EUA, desabou uma arquitetura financeira inteira, construída sobre hipotecas
arriscadas empacotadas em títulos vendidos mundo afora como se fossem seguros.
A
hipótese hoje discutida é que o perigo atual não estaria apenas no hype
em torno dos algoritmos, mas na forma de financiamento da infraestrutura de IA.
Data centers, chips e redes de energia vêm sendo erguidos com base em dívidas, títulos
e crédito estruturado – uma combinação de alavancagem, opacidade e concentração
que lembra a dinâmica do subprime.
Trocando
casas por data centers, a cadeia de IA começa a ganhar contornos parecidos. Gigantes
como Microsoft, Google, Meta, Amazon e Nvidia aceleram investimentos, enquanto empresas
de infraestrutura, como CoreWeave e Crusoe, fecham contratos longos e os usam
para levantar financiamentos bilionários, muitas vezes com instalações e
equipamentos como garantia.
Diferente
de imóveis, no entanto, chips perdem valor rapidamente. Cada nova geração de
GPUs torna a anterior obsoleta, o que pode fazer com que muito do que está
sendo construído valha pouco antes do vencimento da dívida. Essa dependência de
equipamentos caros com vida útil curta desloca parte relevante do risco para o
crédito, não apenas para o mercado acionário.
Na
bolha pontocom, a maior parte das perdas recaiu sobre investidores em ações,
que viram posições evaporarem com o tombo da Nasdaq. O sistema financeiro,
embora abalado, permaneceu de pé. Agora, os credores podem ficar com a conta,
aproximando o quadro daquele da crise imobiliária.
Características
do ecossistema de IA adicionam camadas de incerteza. Seus principais atores se
conectam por uma teia de relações comerciais e financeiras. Um exemplo é o
triângulo OpenAI–Oracle–Nvidia: a OpenAI teria assumido compromisso de cerca de
US$ 300 bilhões ao longo de cinco anos para comprar capacidade de nuvem da
Oracle; a Oracle, para essa entrega, planeja investir algo como US$ 40 bilhões
em cerca de 400 mil GPUs da Nvidia para data centers; e a Nvidia prevê, em
carta de intenções, uma parceria para viabilizar ao menos 10 gigawatts de poder
computacional à OpenAI, com fornecimento de seus sistemas e investimento
progressivo de até US$ 100 bilhões em troca de uma participação acionária não
votante. A grandeza dos números importa, mas a circularidade importa ainda mais,
ampliando o potencial de contágio caso uma das engrenagens emperre.
Além
disso, a dívida atrelada a alguns data centers se espalha por fundos de crédito
privado, seguradoras e bancos médios, o que até pode parecer diluir a
exposição, mas na prática a torna menos visível. Uma sequência de
inadimplências pode gerar um efeito dominó, como em 2008.
Outra
semelhança é que, assim como na crise do subprime se acreditava que o valor dos
imóveis não cairia, hoje prevalece a narrativa da demanda infinita por IA.
Fundos e empresas assumem riscos crescentes, convencidos da necessidade de embarcar
rumo a um destino inevitável. Como então, a promessa de um futuro brilhante
serve para justificar o endividamento presente.
É
verdade que, olhando para as maiores empresas de tecnologia, o receio parece
exagerado, já que, diferentemente das startups da bolha pontocom, elas têm
lucros robustos. Ainda assim, a escala dos investimentos – algo na casa de US$
500 bilhões anuais em despesas de capital combinadas – cobra retorno. A vantagem
é que, até aqui, a maior parte desse gasto tem sido bancada pelo próprio caixa volumoso
dessas companhias, reduzindo o risco de colapso por falta de liquidez.
De
todo modo, o modelo de financiamento que se desenha pode ecoar a crise do
subprime. Isso não significa que a IA não seja útil e promissora – a internet
provou seu valor apesar da bolha – nem que sua infraestrutura não possa ser
aproveitada, como ocorreu com o excedente de cabos de fibra óptica dos anos
1990. Mas, se a aposta falhar, o estouro tende a ir além de um ajuste nas ações
e pode virar um teste para o sistema financeiro. Se, no episódio das empresas
de internet, houve desvalorização das que estavam superestimadas, perdas
concentradas e algumas falências, a hipótese de uma crise ligada ao crédito
parte da premissa de que empresas de nuvem, fabricantes de chips e operadores
de data centers teriam financiado capacidade muito acima da demanda real. Se as
receitas não cobrirem as dívidas, surgirão dificuldades de refinanciamento,
violações contratuais e perdas para fundos e bancos expostos. Com tantos
vínculos entre poucos gigantes tecnológicos, basta um deles balançar para derrubar
os demais.
Eduardo
Felipe Matias é autor dos livros A humanidade e suas
fronteiras e A humanidade contra as cordas, ganhadores do Prêmio Jabuti e
coordenador do livro Marco Legal das Startups. Doutor em Direito Internacional
pela USP, foi visiting scholar nas universidades de Columbia, em NY, e Berkeley
e Stanford, na California, e é professor convidado da Fundação Dom Cabral e sócio
da área empresarial de Elias,
Matias Advogados
Avenida Paulista, 1842,16º andar • Conjunto 165 01310-200 – São Paulo/SP – Brasil
+55 (11) 3528-0707
Atuação: COMERCIAL, CONTRATOS E INTERNACIONAL, INOVAÇÃO E STARTUPS, SOCIETÁRIO, SUSTENTABILIDADE