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Como seria a bolha da IA?

01 Fevereiro 2026/ Notícias & Artigos/ INOVAÇÃO E STARTUPS

Se o ciclo de expansão da inteligência artificial não se justificar, a correção tende a se assemelhar mais à crise do subprime do que à bolha pontocom

 

A nova tecnologia, de natureza revolucionária, se espalhou depressa, dando a entender que reescreveria as regras do jogo da economia global. Prometia salto de produtividade, aceleração do trabalho intelectual e empresas mais eficientes. O dinheiro correu para onde houvesse uma narrativa convincente, startups viraram unicórnios, e o “medo de ficar de fora” passou a guiar decisões de investimento. Até que, quando a eficiência prometida não se converteu em receita na velocidade esperada, o entusiasmo revelou sua fragilidade, as valuations despencaram e a bolha estourou.

Se você pensou que estávamos falando de inteligência artificial, não. A tecnologia em questão é a internet, e o cenário é o da bolha pontocom de 2000/2001. Ainda assim, se a analogia for válida e o boom da IA também for uma bolha, há motivos para crer que seu estouro seguiria um enredo mais próximo de outra crise: a que afetou os mercados financeiros globais em 2007 e 2008.

Na bolha pontocom, o problema central foi a supervalorização das ações de empresas ligadas à internet. Já na crise do subprime, nascida no mercado imobiliário dos EUA, desabou uma arquitetura financeira inteira, construída sobre hipotecas arriscadas empacotadas em títulos vendidos mundo afora como se fossem seguros.

A hipótese hoje discutida é que o perigo atual não estaria apenas no hype em torno dos algoritmos, mas na forma de financiamento da infraestrutura de IA. Data centers, chips e redes de energia vêm sendo erguidos com base em dívidas, títulos e crédito estruturado – uma combinação de alavancagem, opacidade e concentração que lembra a dinâmica do subprime.

Trocando casas por data centers, a cadeia de IA começa a ganhar contornos parecidos. Gigantes como Microsoft, Google, Meta, Amazon e Nvidia aceleram investimentos, enquanto empresas de infraestrutura, como CoreWeave e Crusoe, fecham contratos longos e os usam para levantar financiamentos bilionários, muitas vezes com instalações e equipamentos como garantia.

Diferente de imóveis, no entanto, chips perdem valor rapidamente. Cada nova geração de GPUs torna a anterior obsoleta, o que pode fazer com que muito do que está sendo construído valha pouco antes do vencimento da dívida. Essa dependência de equipamentos caros com vida útil curta desloca parte relevante do risco para o crédito, não apenas para o mercado acionário.

Na bolha pontocom, a maior parte das perdas recaiu sobre investidores em ações, que viram posições evaporarem com o tombo da Nasdaq. O sistema financeiro, embora abalado, permaneceu de pé. Agora, os credores podem ficar com a conta, aproximando o quadro daquele da crise imobiliária.

Características do ecossistema de IA adicionam camadas de incerteza. Seus principais atores se conectam por uma teia de relações comerciais e financeiras. Um exemplo é o triângulo OpenAI–Oracle–Nvidia: a OpenAI teria assumido compromisso de cerca de US$ 300 bilhões ao longo de cinco anos para comprar capacidade de nuvem da Oracle; a Oracle, para essa entrega, planeja investir algo como US$ 40 bilhões em cerca de 400 mil GPUs da Nvidia para data centers; e a Nvidia prevê, em carta de intenções, uma parceria para viabilizar ao menos 10 gigawatts de poder computacional à OpenAI, com fornecimento de seus sistemas e investimento progressivo de até US$ 100 bilhões em troca de uma participação acionária não votante. A grandeza dos números importa, mas a circularidade importa ainda mais, ampliando o potencial de contágio caso uma das engrenagens emperre.

Além disso, a dívida atrelada a alguns data centers se espalha por fundos de crédito privado, seguradoras e bancos médios, o que até pode parecer diluir a exposição, mas na prática a torna menos visível. Uma sequência de inadimplências pode gerar um efeito dominó, como em 2008.

Outra semelhança é que, assim como na crise do subprime se acreditava que o valor dos imóveis não cairia, hoje prevalece a narrativa da demanda infinita por IA. Fundos e empresas assumem riscos crescentes, convencidos da necessidade de embarcar rumo a um destino inevitável. Como então, a promessa de um futuro brilhante serve para justificar o endividamento presente.

É verdade que, olhando para as maiores empresas de tecnologia, o receio parece exagerado, já que, diferentemente das startups da bolha pontocom, elas têm lucros robustos. Ainda assim, a escala dos investimentos – algo na casa de US$ 500 bilhões anuais em despesas de capital combinadas – cobra retorno. A vantagem é que, até aqui, a maior parte desse gasto tem sido bancada pelo próprio caixa volumoso dessas companhias, reduzindo o risco de colapso por falta de liquidez.

De todo modo, o modelo de financiamento que se desenha pode ecoar a crise do subprime. Isso não significa que a IA não seja útil e promissora – a internet provou seu valor apesar da bolha – nem que sua infraestrutura não possa ser aproveitada, como ocorreu com o excedente de cabos de fibra óptica dos anos 1990. Mas, se a aposta falhar, o estouro tende a ir além de um ajuste nas ações e pode virar um teste para o sistema financeiro. Se, no episódio das empresas de internet, houve desvalorização das que estavam superestimadas, perdas concentradas e algumas falências, a hipótese de uma crise ligada ao crédito parte da premissa de que empresas de nuvem, fabricantes de chips e operadores de data centers teriam financiado capacidade muito acima da demanda real. Se as receitas não cobrirem as dívidas, surgirão dificuldades de refinanciamento, violações contratuais e perdas para fundos e bancos expostos. Com tantos vínculos entre poucos gigantes tecnológicos, basta um deles balançar para derrubar os demais.

 

Eduardo Felipe Matias é autor dos livros A humanidade e suas fronteiras e A humanidade contra as cordas, ganhadores do Prêmio Jabuti e coordenador do livro Marco Legal das Startups. Doutor em Direito Internacional pela USP, foi visiting scholar nas universidades de Columbia, em NY, e Berkeley e Stanford, na California, e é professor convidado da Fundação Dom Cabral e sócio da área empresarial de Elias, Matias Advogados

 

Artigo publicado originalmente na Época Negócios em fevereiro/2026.

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