Reforço tecnológico
Uso da IA como apoio para a
tomada de decisões pode ser produtivo, mas requer cuidados.
Por Jacilio Saraiva
As lideranças estão se
apropriando cada vez mais dos recursos da inteligência artificial (IA). Segundo
um levantamento da consultoria Deloitte com 3,2 mil gestores em 24 países,
sendo 115 no Brasil, aprimorar a tomada de decisões é um dos benefícios mais
observados com o uso da tecnologia, apontado por 53% dos profissionais. Só
perde para ações como melhorar a produtividade (66%) e aparece antes da redução
de custos (40%). Para especialistas, é possível empregar a ferramenta como um
apoio na criação de novas estratégias — mas ela não é capaz de substituir o bom
senso do tomador de decisões.
“Na prática, um CEO pode recorrer
à IA para fazer uma primeira leitura de um problema, testar hipóteses e pedir
contrapontos”, diz Eduardo Felipe Matias, autor do livro “A humanidade e o
poder digital: Impactos da IA sobre nosso futuro”. Em vez de perguntar o que
deve ser feito, o indicado é pedir para o sistema apresentar riscos e cenários
possíveis numa situação, diz. “Mas a tecnologia não substitui a experiência, a
intuição e a leitura de contexto do executivo.” Ele lembra que as movimentações
dos líderes quase nunca são apenas técnicas e que envolvem cultura
organizacional, “timing”, valores e visão de longo prazo. “Nesses casos, a IA
melhora a análise, porém o julgamento final deve continuar com o gestor.”
Para Matias, as decisões mais
aderentes à análise preditiva são as baseadas em grande volume de dados. “A
ferramenta tende a funcionar melhor quando consegue comparar e encontrar
relações entre muitos elementos, tarefa que uma equipe humana pode ter dificuldades
de finalizar”, exemplifica. “Isso se aplica, por exemplo, à verificação de
registros de ‘churn’ [taxa de rotatividade de clientes] ou de gestão de
estoques.”
O autor chama a atenção ainda
para a utilização dos algoritmos em deliberações que podem afetar pessoas:
“Contratações, promoção, demissão, avaliação de desempenho e definição de
remuneração podem ser auxiliadas pela IA, mas não deveriam ser totalmente automatizadas
sem uma revisão humana”.
Isso porque o fato de um sistema
ser “baseado em dados” não significa que vai produzir julgamentos justos e
confiáveis. “Muitas vezes, os dados usados para treinar os programas refletem
desigualdades históricas, preconceitos e estereótipos.” Os sistemas de IA
podem, por exemplo, tratar a desigualdade de oportunidades entre gêneros no
mercado de trabalho como um padrão estatístico e transformá-la em uma
recomendação, reproduzindo dinâmicas que deveriam ser superadas. “A promessa de
eficiência, nesse caso, pode levar a decisões equivocadas.”
Publicado originalmente no jornal Valor Econômico em 16 de junho de 2026.
Para ler a matéria completa, acesse o link: Manual de sobrevivência em cenários de crise | Valor Econômico
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